Reflexões7 min de leitura

O que a Bíblia diz sobre o divórcio e o novo casamento?

A Bíblia trata do divórcio em quatro blocos de texto que não dizem a mesma coisa. Veja o que cada um diz, por que Mateus traz uma exceção e como cada tradição cristã lida com o novo casamento.

Por · Professora de introdução bíblica, licenciada em Letras · Revisado por Tiago Monteiro

Publicado em · Atualizado em

Em resumo

  • A Bíblia trata do divórcio em quatro blocos principais: Deuteronômio 24, Malaquias 2, os Evangelhos e 1 Coríntios 7.
  • Deuteronômio 24 não institui o divórcio: pressupõe que ele já acontecia e regula a carta de divórcio, que protegia a mulher despedida.
  • Mateus 19:9 traz uma exceção que Marcos 10 não traz, e essa diferença entre os Evangelhos está no centro do debate cristão sobre o tema.
  • Paulo, em 1 Coríntios 7:15, trata do caso em que o cônjuge que não é cristão vai embora e diz que o irmão ou a irmã não estão sujeitos à servidão.
  • As tradições cristãs divergem profundamente sobre o novo casamento: a católica trabalha com nulidade, a ortodoxa admite segundo casamento por condescendência, e as protestantes admitem em hipóteses variadas.
Neste artigo

Resposta direta: a Bíblia trata do divórcio em quatro blocos de texto que não dizem exatamente a mesma coisa. A lei de Deuteronômio 24 pressupõe o divórcio e regula a carta que a mulher despedida recebia. Malaquias 2 traz uma condenação enfática. Nos Evangelhos, Jesus remete ao propósito do início e chama a permissão de Moisés de concessão à dureza do coração — com Mateus registrando uma exceção que Marcos não registra. Paulo, em 1 Coríntios 7, acrescenta o caso do cônjuge que não é cristão e vai embora. O que as tradições cristãs fazem com esse conjunto é bastante diferente.

O que a lei de Moisés previa?

O texto que Jesus discute com os fariseus é este:

Quando algum tomar mulher e se casar com ela, se não lhe agradar por haver achado nela alguma coisa ofensiva, lhe escreverá carta de divórcio, e a entregará em sua mão, e a despedirá de sua casa. (Deuteronômio 24:1)

Duas observações que mudam a leitura de Deuteronômio 24:

  • A lei não cria o divórcio. Ela pressupõe uma prática existente e regula um ponto específico.
  • A carta protegia a mulher. Um documento escrito era o que permitia a ela casar-se de novo sem ficar em situação de vulnerabilidade jurídica e social.

O que Jesus respondeu quando perguntaram sobre isso?

A pergunta que lhe fizeram não era se o divórcio existia, e sim por qual motivo era lícito — havia debate entre escolas rabínicas sobre o alcance da expressão "alguma coisa ofensiva":

Então os fariseus se aproximaram dele e, provando-o, perguntaram-lhe: É lícito ao homem se divorciar da sua mulher por qualquer causa? Porém ele lhes respondeu: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio, macho e fêmea os fez, e disse: Portanto o homem deixará pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma única carne? (Mateus 19:3-5)

A citação que ele faz é de Gênesis 2, e a conclusão vem em seguida:

Assim eles já não são mais dois, mas sim uma única carne; portanto, o que Deus juntou, o ser humano não separe. (Mateus 19:6)

E, sobre a permissão da lei:

Jesus lhes disse: Por causa da dureza dos vossos corações Moisés vos permitiu divorciardes de vossas mulheres; mas no princípio não foi assim. Porém eu vos digo que qualquer um que se divorciar de sua mulher, a não ser por causa de pecado sexual, e se casar com outra, adultera; e o que se casar com a divorciada também adultera. (Mateus 19:8-9)

O capítulo está em Mateus 19.

Por que Marcos e Mateus não dizem a mesma coisa?

Porque a exceção só aparece em Mateus. Marcos registra a sentença sem ela:

E disse-lhes: Qualquer um que deixar a sua mulher, e se casar com outra, adultera contra ela. E se a mulher deixar o seu marido, e se casar com outro, adultera. (Marcos 10:11-12)

Essa diferença entre Marcos 10 e Mateus 19 é conhecida como cláusula de exceção mateana e está no centro de séculos de debate cristão. Quem lê Marcos como registro mais antigo tende a ver na frase uma afirmação sem exceções; quem lê Mateus como esclarecimento tende a ver uma hipótese prevista. As duas leituras são antigas.

Um detalhe do contexto: em Marcos, a possibilidade de a mulher deixar o marido é mencionada, o que reflete o ambiente greco-romano em que a comunidade vivia — na lei judaica da época, quem despedia era o homem.

O que Paulo escreveu sobre separação?

Paulo distingue com clareza o que atribui ao Senhor e o que apresenta como orientação própria a uma situação nova:

Porém aos casados eu mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido. E se se separar, fique sem casar, ou se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher. (1 Coríntios 7:10-11)

E, adiante, o caso do casal em que só uma pessoa é cristã:

Mas se o descrente se separar, separe-se também. Em tal situação o irmão ou a irmã não estão sujeitos à servidão; mas Deus nos chamou para a paz. (1 Coríntios 7:15)

O capítulo está em 1 Coríntios 7. Esse versículo é a base do que a tradição católica chama de privilégio paulino, e é também um dos textos mais citados por igrejas protestantes ao tratar de abandono.

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E Malaquias 2:16, que diz que Deus odeia o divórcio?

O versículo é este:

Porque o SENHOR Deus de Israel diz que ele odeia o divórcio, e quem cobre a sua roupa de violência, diz o SENHOR dos exércitos. Guardai-vos pois em vosso espírito, e não sejais infiéis. (Malaquias 2:16)

Duas coisas valem ser ditas sobre Malaquias 2. A primeira é que o hebraico deste versículo é reconhecidamente difícil, e traduções diferentes o vertem de maneiras bem distintas. A segunda é que a frase aparece colada a "quem cobre a sua roupa de violência", num contexto de denúncia de homens que abandonavam as esposas — o alvo do texto é a traição, não a mulher que sai.

Como cada tradição cristã lida com divórcio e novo casamento?

TradiçãoDivórcio civilNovo casamento na igrejaInstrumento próprio
CatólicaReconhece a separação de fato e o divórcio civil como realidade jurídicaNão celebra novo casamento enquanto o vínculo anterior for válidoProcesso de declaração de nulidade, que examina se houve casamento válido desde o início
OrtodoxaAdmite o divórcio eclesiástico em hipóteses previstasAdmite segundo e terceiro casamento, com rito penitencial diferente do primeiroPrincípio da oikonomia, que aplica a norma com condescendência pastoral
Protestante históricaReconheceEm geral admite em hipóteses como infidelidade e abandonoDecisão pastoral e disciplina da denominação
Evangélica e pentecostalReconheceVaria muito: de admissão ampla a restrições, sobretudo para liderançasRegimento interno da denominação ou da igreja local

Nenhuma dessas posições é apresentada aqui como a correta. O que se pode dizer com segurança é que todas leem os mesmos textos e chegam a arranjos diferentes, e que a diferença tem a ver com o peso relativo dado a Mateus 19, a Marcos 10 e a 1 Coríntios 7.

O que a Bíblia não faz nesse assunto

  • Não trata do casamento moderno. O contexto dos textos é o de sociedades em que a mulher despedida ficava sem meios de sustento, o que explica a centralidade da carta de divórcio.
  • Não promete restauração. A Bíblia não é apresentada aqui como garantia de reconciliação, e nenhuma passagem afirma que uma oração ou uma conduta específica traz o cônjuge de volta.
  • Não trata violência doméstica com esse vocabulário. Nenhum dos textos citados discute agressão, e nenhuma das tradições cristãs lê a indissolubilidade como obrigação de permanecer em situação de violência.

Sobre o rito de casamento em si, e sobre o que cada tradição celebra, há uma descrição em casamento religioso: como é a cerimônia.

Se a pergunta vier de dentro de uma crise

Separação é um dos eventos mais duros da vida adulta, e nenhum texto deste site pretende resolvê-la. Se a leitura estiver sendo usada para decidir algo grave, vale conversar com alguém de confiança da sua comunidade e, no que toca a direitos, filhos e patrimônio, com um profissional do direito.

Se a situação envolver violência, isso não é matéria de interpretação bíblica: no Brasil, a Central de Atendimento à Mulher atende pelo 180 e a emergência policial é o 190. E se o processo estiver afetando o sono, o trabalho ou a saúde, procure acompanhamento profissional — este texto não substitui atendimento médico ou psicológico. O CVV atende de graça pelo 188, 24 horas por dia.

Texto bíblico: Bíblia Livre (BLIVRE), licença Creative Commons Atribuição 4.0. Este artigo descreve o que o texto diz e o que diferentes tradições cristãs ensinam; não recomenda uma delas.

Fontes

Perguntas frequentes

O divórcio é pecado segundo a Bíblia?

Os textos não usam uma fórmula única. Jesus remete ao propósito do início e chama a permissão de Moisés de concessão à dureza do coração; Mateus 19:9 registra uma exceção que Marcos 10 não registra; Paulo prevê o caso de abandono pelo cônjuge que não é cristão. As tradições cristãs leem esse conjunto de maneiras diferentes.

Quem se divorciou pode casar de novo na igreja?

Depende da tradição. A Igreja Católica não celebra novo casamento enquanto o vínculo anterior for considerado válido, e trabalha com o processo de declaração de nulidade. As Igrejas Ortodoxas admitem segundo casamento com rito penitencial. Igrejas protestantes e evangélicas admitem em hipóteses que variam por denominação.

O que é a cláusula de exceção de Mateus 19:9?

É a expressão a não ser por causa de pecado sexual, que aparece em Mateus e não aparece em Marcos 10 nem em Lucas 16. A diferença entre os Evangelhos está no centro do debate cristão sobre divórcio e novo casamento, e as duas leituras são antigas.

O que significa o privilégio paulino?

É o nome dado na tradição católica à situação descrita em 1 Coríntios 7:15, em que o cônjuge que não é cristão se separa e o texto diz que o irmão ou a irmã não estão sujeitos à servidão. Igrejas protestantes citam o mesmo versículo ao tratar de abandono.

Malaquias 2:16 diz que Deus odeia o divórcio?

É como a Bíblia Livre traz o versículo. O hebraico desse trecho é reconhecidamente difícil e as traduções divergem bastante. No contexto do capítulo, a denúncia é dirigida a homens que abandonavam as esposas, e a frase aparece colada à imagem de quem cobre a roupa de violência.

Textos bíblicos: Bíblia Livre (BLIVRE), licença Creative Commons Atribuição 4.0 — © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles. Orações, introduções e reflexões: texto original do site, sem vínculo com denominações. Conteúdo devocional; não substitui orientação médica, psicológica ou jurídica.

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