Estudos7 min de leitura

O que a Bíblia diz sobre o fim do mundo e o arrebatamento?

A Bíblia afirma com todas as letras que ninguém sabe o dia, e a palavra arrebatamento vem de um único versículo. Veja o que o texto traz e como cada tradição cristã lê o fim dos tempos.

Por · Professora de introdução bíblica, licenciada em Letras · Revisado por Tiago Monteiro

Publicado em · Atualizado em

Em resumo

  • A Bíblia afirma em Mateus 24:36 e Marcos 13:32 que ninguém sabe o dia nem a hora, e Atos 1:7 repete a recusa em dar cronograma.
  • A palavra arrebatamento vem do verbo usado em 1 Tessalonicenses 4:17, traduzido do grego harpazo pelo latim rapio; o texto não diz que se trata de um evento separado da volta de Cristo.
  • O arrebatamento como evento anterior a um período de tribulação é uma leitura sistematizada no século XIX, e não é ensinada pela Igreja Católica, pelas Igrejas Ortodoxas nem pela maioria das igrejas protestantes históricas.
  • O milênio de Apocalipse 20 é lido de pelo menos três formas diferentes entre as tradições cristãs, e as três são antigas.
  • Nenhum texto bíblico oferece data, e todas as tentativas históricas de calcular uma data foram feitas contra a afirmação explícita dos Evangelhos.
Neste artigo

Resposta direta: sobre o fim do mundo, a Bíblia faz duas coisas ao mesmo tempo — descreve a volta de Cristo com imagens fortes e recusa expressamente informar quando isso acontece. Mateus 24:36 diz que daquele dia e hora ninguém sabe. Sobre o arrebatamento, a palavra vem de um único versículo, 1 Tessalonicenses 4:17, em que Paulo escreve que os vivos serão arrebatados juntamente com os que morreram para encontrar o Senhor. A ideia de que esse arrebatamento é um evento separado, anterior a um período de tribulação, é uma interpretação sistematizada no século XIX e não é a leitura da maioria das tradições cristãs.

A Bíblia marca uma data para o fim do mundo?

Não, e a recusa é explícita:

Porém daquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, a não ser meu Pai somente. (Mateus 24:36)

Marcos registra a mesma frase de forma ainda mais ampla, incluindo o Filho entre os que não sabem, em Marcos 13. E quando os discípulos insistem na pergunta depois da ressurreição, a resposta é a mesma:

E ele lhes disse: Não pertence a vós saber os tempos ou estações que o Pai pôs em sua própria autoridade. (Atos 1:7)

Os capítulos estão em Mateus 24 e em Atos 1. Toda previsão de data feita ao longo da história cristã foi feita contra essas três frases, e não a partir delas.

De onde vem a palavra arrebatamento?

De um verbo, num versículo:

Pois o mesmo Senhor descerá do céu com grande aclamação, com voz de arcanjo, e com trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro; Em seguida nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar o Senhor no ar, e assim estaremos com o Senhor para sempre. (1 Tessalonicenses 4:16-17)

O verbo grego é harpazo, "tomar à força", "levar de repente". A tradução latina usou rapio, de onde vem rapture em inglês e arrebatamento em português. O capítulo inteiro está em 1 Tessalonicenses 4.

Três observações que o próprio texto permite fazer:

  • O assunto da passagem é o luto. Paulo escreve para consolar uma comunidade preocupada com quem já tinha morrido, como se lê no versículo 13.
  • O texto descreve um único movimento, com os mortos ressuscitando primeiro e os vivos indo em seguida ao encontro do Senhor.
  • O texto não menciona tribulação, nem antes nem depois. Esse elemento vem de outros trechos, combinados por leitura sistemática.

Como cada tradição cristã lê o arrebatamento e a tribulação?

TradiçãoComo lê 1 Tessalonicenses 4:17Arrebatamento como evento à parte
CatólicaDescrição da segunda vinda de Cristo, junto com a ressurreição geral e o juízoNão ensina
OrtodoxaMesma leitura, dentro da expectativa da segunda vinda e da ressurreiçãoNão ensina
Protestante histórica (luterana, anglicana, reformada, metodista)Em geral, descrição do encontro com Cristo na volta deleMajoritariamente não ensina
Evangélica e pentecostalParte significativa lê como evento distinto e anterior à tribulaçãoÉ a tradição em que a doutrina é mais difundida, embora não seja unânime nela

A leitura do arrebatamento como evento separado ganhou forma no movimento dispensacionalista a partir da primeira metade do século XIX, associada ao pregador irlandês John Nelson Darby, e se popularizou depois com bíblias de estudo anotadas, com literatura de grande circulação e com o cinema. É uma leitura recente na história do cristianismo, o que não a torna certa nem errada — torna datável.

O que é o milênio de Apocalipse 20?

O trecho fala de mil anos de reinado. O fim do versículo 4 e o versículo 5 dizem:

[...] e eles viveram e reinaram com Cristo por mil anos. Mas os outros mortos não reviveram, enquanto não se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. (Apocalipse 20:4-5)

E há pelo menos três leituras antigas desse número, presentes em Apocalipse 20:

  • Amilenismo. Os mil anos são símbolo do tempo presente da Igreja. É a leitura predominante nas Igrejas Católica e Ortodoxas e em boa parte das protestantes históricas.
  • Pós-milenismo. O reinado se realiza na história antes da volta de Cristo. Teve grande influência em certos períodos do protestantismo.
  • Pré-milenismo. Cristo volta e então se instaura o reinado de mil anos. É a leitura mais comum no meio evangélico e pentecostal.

Apocalipse é literatura apocalíptica, um gênero com convenções próprias, em que números têm valor simbólico e as imagens funcionam como código para leitores da época. Isso não é opinião de uma tradição: é reconhecido por comentaristas dos quatro blocos.

Versículo do dia

Comece o dia com um versículo e leve-o com você

Um versículo escolhido para hoje, com a leitura completa do capítulo, uma reflexão curta e a imagem pronta para compartilhar.

  • Texto bíblico completo
  • Imagem para compartilhar
  • Grátis, sem cadastro
Ver o versículo de hoje

O que o texto pede de quem espera?

Não é cálculo. É atenção:

Vigiai, pois, porque não sabeis em que hora o vosso Senhor virá. Porém sabei isto: se o dono de casa soubesse a que hora da noite o ladrão viria, vigiaria, e não deixaria invadir a sua casa. Portanto também vós estai prontos, porque o Filho do homem virá na hora que não esperais. (Mateus 24:42-44)

E em Atos 1:8, logo depois de recusar informar os tempos, o texto passa imediatamente a uma tarefa presente: ser testemunhas. As tradições cristãs divergem sobre cronologia e concordam bastante nesse ponto: o material serve para orientar o presente, não para montar calendário.

O que é a grande tribulação?

A expressão vem de Mateus 24:21, dentro do discurso em que Jesus responde a uma pergunta sobre a destruição do templo de Jerusalém. É esse duplo endereço que gera a divergência: parte das tradições lê o capítulo como referido principalmente aos acontecimentos do ano 70, quando o templo foi de fato destruído pelos romanos; parte o lê como referido ao fim da história; parte lê as duas coisas sobrepostas, no que os comentaristas chamam de dupla referência.

O número de sete anos de tribulação, muito citado, não aparece em Mateus 24. Ele vem de uma leitura da profecia das setenta semanas de Daniel 9 combinada com o Apocalipse, e é característico do dispensacionalismo.

Por que o Apocalipse foi escrito assim?

Porque literatura apocalíptica é um gênero, com regras próprias, e não um relatório. Os traços são reconhecíveis: visões, números simbólicos, animais que representam poderes políticos, cores com valor fixo e um autor que escreve para comunidades sob pressão, usando imagens que os de dentro entendem e os de fora não.

Ler o Apocalipse como se fosse cronologia é o mesmo tipo de erro que ler um salmo como se fosse tratado de geografia. Isso não é leitura de uma denominação: comentaristas católicos, ortodoxos, protestantes históricos e evangélicos reconhecem o gênero, ainda que divirjam sobre o que cada imagem representa.

Quem quiser entender o vocabulário antes de entrar nas discussões encontra um caminho em como começar a ler a Bíblia.

O que a Bíblia não faz sobre o fim do mundo

  • Não dá data, ano nem geração calculável.
  • Não descreve política internacional contemporânea. As identificações de países, chefes de Estado e tecnologias com figuras do Apocalipse são leituras de época, e cada época fez a sua.
  • Não promete que quem calcula certo escapa. A promessa dos textos está ligada à volta de Cristo, não ao acerto de uma previsão.
  • Não trata a expectativa como motivo de pânico. A palavra que aparece nas passagens é vigiar, não temer.

Se o assunto está causando medo

Conteúdo sobre fim do mundo circula hoje em vídeo curto, corrente de mensagem e manchete, muitas vezes com data e ameaça. Isso não é o que os textos citados aqui dizem, e vale ter isso claro antes de mais nada.

Se o tema estiver provocando ansiedade que atrapalha o sono, o trabalho, os estudos ou a convivência, ou pensamentos de desesperança, procure ajuda profissional. Este texto não substitui acompanhamento médico ou psicológico. No Brasil, o CVV atende de graça pelo 188, 24 horas por dia.

Texto bíblico: Bíblia Livre (BLIVRE), licença Creative Commons Atribuição 4.0. Este artigo descreve o que o texto diz e o que diferentes tradições cristãs ensinam; não recomenda uma delas.

Fontes

Perguntas frequentes

A palavra arrebatamento está na Bíblia?

O substantivo não aparece; o verbo, sim. Em 1 Tessalonicenses 4:17 Paulo escreve que os vivos serão arrebatados junto com os ressuscitados para encontrar o Senhor. A palavra portuguesa vem do latim rapio, que traduziu o grego harpazo nesse versículo.

Todas as igrejas cristãs acreditam no arrebatamento antes da tribulação?

Não. A Igreja Católica, as Igrejas Ortodoxas e a maioria das igrejas protestantes históricas não ensinam o arrebatamento como evento separado da segunda vinda. A doutrina é mais difundida no meio evangélico e pentecostal, e nem ali é unânime.

A Bíblia diz quando será o fim do mundo?

Não. Mateus 24:36 afirma que ninguém sabe o dia nem a hora, Marcos 13:32 repete a frase incluindo o Filho, e Atos 1:7 diz que não pertence aos discípulos saber os tempos. Nenhuma passagem oferece data ou meio de calcular uma.

O que são os mil anos de Apocalipse 20?

Há três leituras antigas. O amilenismo entende os mil anos como símbolo do tempo presente da Igreja, e predomina entre católicos, ortodoxos e protestantes históricos. O pós-milenismo os situa na história antes da volta de Cristo. O pré-milenismo os situa depois dela, e é comum no meio evangélico.

Quem foi John Nelson Darby?

Foi um pregador irlandês do século XIX associado à sistematização do dispensacionalismo, a corrente que popularizou a leitura do arrebatamento como evento anterior à tribulação. A difusão dessa leitura veio depois por bíblias de estudo anotadas e por literatura de grande circulação.

Textos bíblicos: Bíblia Livre (BLIVRE), licença Creative Commons Atribuição 4.0 — © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles. Orações, introduções e reflexões: texto original do site, sem vínculo com denominações. Conteúdo devocional; não substitui orientação médica, psicológica ou jurídica.

Versículo do dia

Leia, reflita e compartilhe

Ver hoje