O que a Bíblia diz sobre o fim do mundo e o arrebatamento?
A Bíblia afirma com todas as letras que ninguém sabe o dia, e a palavra arrebatamento vem de um único versículo. Veja o que o texto traz e como cada tradição cristã lê o fim dos tempos.
Por Helena Vasques · Professora de introdução bíblica, licenciada em Letras · Revisado por Tiago Monteiro
Publicado em · Atualizado em
Em resumo
- A Bíblia afirma em Mateus 24:36 e Marcos 13:32 que ninguém sabe o dia nem a hora, e Atos 1:7 repete a recusa em dar cronograma.
- A palavra arrebatamento vem do verbo usado em 1 Tessalonicenses 4:17, traduzido do grego harpazo pelo latim rapio; o texto não diz que se trata de um evento separado da volta de Cristo.
- O arrebatamento como evento anterior a um período de tribulação é uma leitura sistematizada no século XIX, e não é ensinada pela Igreja Católica, pelas Igrejas Ortodoxas nem pela maioria das igrejas protestantes históricas.
- O milênio de Apocalipse 20 é lido de pelo menos três formas diferentes entre as tradições cristãs, e as três são antigas.
- Nenhum texto bíblico oferece data, e todas as tentativas históricas de calcular uma data foram feitas contra a afirmação explícita dos Evangelhos.
Neste artigo
- 01A Bíblia marca uma data para o fim do mundo?
- 02De onde vem a palavra arrebatamento?
- 03Como cada tradição cristã lê o arrebatamento e a tribulação?
- 04O que é o milênio de Apocalipse 20?
- 05O que o texto pede de quem espera?
- 06O que é a grande tribulação?
- 07Por que o Apocalipse foi escrito assim?
- 08O que a Bíblia não faz sobre o fim do mundo
- 09Se o assunto está causando medo
Resposta direta: sobre o fim do mundo, a Bíblia faz duas coisas ao mesmo tempo — descreve a volta de Cristo com imagens fortes e recusa expressamente informar quando isso acontece. Mateus 24:36 diz que daquele dia e hora ninguém sabe. Sobre o arrebatamento, a palavra vem de um único versículo, 1 Tessalonicenses 4:17, em que Paulo escreve que os vivos serão arrebatados juntamente com os que morreram para encontrar o Senhor. A ideia de que esse arrebatamento é um evento separado, anterior a um período de tribulação, é uma interpretação sistematizada no século XIX e não é a leitura da maioria das tradições cristãs.
A Bíblia marca uma data para o fim do mundo?
Não, e a recusa é explícita:
Porém daquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, a não ser meu Pai somente. (Mateus 24:36)
Marcos registra a mesma frase de forma ainda mais ampla, incluindo o Filho entre os que não sabem, em Marcos 13. E quando os discípulos insistem na pergunta depois da ressurreição, a resposta é a mesma:
E ele lhes disse: Não pertence a vós saber os tempos ou estações que o Pai pôs em sua própria autoridade. (Atos 1:7)
Os capítulos estão em Mateus 24 e em Atos 1. Toda previsão de data feita ao longo da história cristã foi feita contra essas três frases, e não a partir delas.
De onde vem a palavra arrebatamento?
De um verbo, num versículo:
Pois o mesmo Senhor descerá do céu com grande aclamação, com voz de arcanjo, e com trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro; Em seguida nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar o Senhor no ar, e assim estaremos com o Senhor para sempre. (1 Tessalonicenses 4:16-17)
O verbo grego é harpazo, "tomar à força", "levar de repente". A tradução latina usou rapio, de onde vem rapture em inglês e arrebatamento em português. O capítulo inteiro está em 1 Tessalonicenses 4.
Três observações que o próprio texto permite fazer:
- O assunto da passagem é o luto. Paulo escreve para consolar uma comunidade preocupada com quem já tinha morrido, como se lê no versículo 13.
- O texto descreve um único movimento, com os mortos ressuscitando primeiro e os vivos indo em seguida ao encontro do Senhor.
- O texto não menciona tribulação, nem antes nem depois. Esse elemento vem de outros trechos, combinados por leitura sistemática.
Como cada tradição cristã lê o arrebatamento e a tribulação?
| Tradição | Como lê 1 Tessalonicenses 4:17 | Arrebatamento como evento à parte |
|---|---|---|
| Católica | Descrição da segunda vinda de Cristo, junto com a ressurreição geral e o juízo | Não ensina |
| Ortodoxa | Mesma leitura, dentro da expectativa da segunda vinda e da ressurreição | Não ensina |
| Protestante histórica (luterana, anglicana, reformada, metodista) | Em geral, descrição do encontro com Cristo na volta dele | Majoritariamente não ensina |
| Evangélica e pentecostal | Parte significativa lê como evento distinto e anterior à tribulação | É a tradição em que a doutrina é mais difundida, embora não seja unânime nela |
A leitura do arrebatamento como evento separado ganhou forma no movimento dispensacionalista a partir da primeira metade do século XIX, associada ao pregador irlandês John Nelson Darby, e se popularizou depois com bíblias de estudo anotadas, com literatura de grande circulação e com o cinema. É uma leitura recente na história do cristianismo, o que não a torna certa nem errada — torna datável.
O que é o milênio de Apocalipse 20?
O trecho fala de mil anos de reinado. O fim do versículo 4 e o versículo 5 dizem:
[...] e eles viveram e reinaram com Cristo por mil anos. Mas os outros mortos não reviveram, enquanto não se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. (Apocalipse 20:4-5)
E há pelo menos três leituras antigas desse número, presentes em Apocalipse 20:
- Amilenismo. Os mil anos são símbolo do tempo presente da Igreja. É a leitura predominante nas Igrejas Católica e Ortodoxas e em boa parte das protestantes históricas.
- Pós-milenismo. O reinado se realiza na história antes da volta de Cristo. Teve grande influência em certos períodos do protestantismo.
- Pré-milenismo. Cristo volta e então se instaura o reinado de mil anos. É a leitura mais comum no meio evangélico e pentecostal.
Apocalipse é literatura apocalíptica, um gênero com convenções próprias, em que números têm valor simbólico e as imagens funcionam como código para leitores da época. Isso não é opinião de uma tradição: é reconhecido por comentaristas dos quatro blocos.
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O que o texto pede de quem espera?
Não é cálculo. É atenção:
Vigiai, pois, porque não sabeis em que hora o vosso Senhor virá. Porém sabei isto: se o dono de casa soubesse a que hora da noite o ladrão viria, vigiaria, e não deixaria invadir a sua casa. Portanto também vós estai prontos, porque o Filho do homem virá na hora que não esperais. (Mateus 24:42-44)
E em Atos 1:8, logo depois de recusar informar os tempos, o texto passa imediatamente a uma tarefa presente: ser testemunhas. As tradições cristãs divergem sobre cronologia e concordam bastante nesse ponto: o material serve para orientar o presente, não para montar calendário.
O que é a grande tribulação?
A expressão vem de Mateus 24:21, dentro do discurso em que Jesus responde a uma pergunta sobre a destruição do templo de Jerusalém. É esse duplo endereço que gera a divergência: parte das tradições lê o capítulo como referido principalmente aos acontecimentos do ano 70, quando o templo foi de fato destruído pelos romanos; parte o lê como referido ao fim da história; parte lê as duas coisas sobrepostas, no que os comentaristas chamam de dupla referência.
O número de sete anos de tribulação, muito citado, não aparece em Mateus 24. Ele vem de uma leitura da profecia das setenta semanas de Daniel 9 combinada com o Apocalipse, e é característico do dispensacionalismo.
Por que o Apocalipse foi escrito assim?
Porque literatura apocalíptica é um gênero, com regras próprias, e não um relatório. Os traços são reconhecíveis: visões, números simbólicos, animais que representam poderes políticos, cores com valor fixo e um autor que escreve para comunidades sob pressão, usando imagens que os de dentro entendem e os de fora não.
Ler o Apocalipse como se fosse cronologia é o mesmo tipo de erro que ler um salmo como se fosse tratado de geografia. Isso não é leitura de uma denominação: comentaristas católicos, ortodoxos, protestantes históricos e evangélicos reconhecem o gênero, ainda que divirjam sobre o que cada imagem representa.
Quem quiser entender o vocabulário antes de entrar nas discussões encontra um caminho em como começar a ler a Bíblia.
O que a Bíblia não faz sobre o fim do mundo
- Não dá data, ano nem geração calculável.
- Não descreve política internacional contemporânea. As identificações de países, chefes de Estado e tecnologias com figuras do Apocalipse são leituras de época, e cada época fez a sua.
- Não promete que quem calcula certo escapa. A promessa dos textos está ligada à volta de Cristo, não ao acerto de uma previsão.
- Não trata a expectativa como motivo de pânico. A palavra que aparece nas passagens é vigiar, não temer.
Se o assunto está causando medo
Conteúdo sobre fim do mundo circula hoje em vídeo curto, corrente de mensagem e manchete, muitas vezes com data e ameaça. Isso não é o que os textos citados aqui dizem, e vale ter isso claro antes de mais nada.
Se o tema estiver provocando ansiedade que atrapalha o sono, o trabalho, os estudos ou a convivência, ou pensamentos de desesperança, procure ajuda profissional. Este texto não substitui acompanhamento médico ou psicológico. No Brasil, o CVV atende de graça pelo 188, 24 horas por dia.
Texto bíblico: Bíblia Livre (BLIVRE), licença Creative Commons Atribuição 4.0. Este artigo descreve o que o texto diz e o que diferentes tradições cristãs ensinam; não recomenda uma delas.
Fontes
Perguntas frequentes
A palavra arrebatamento está na Bíblia?
O substantivo não aparece; o verbo, sim. Em 1 Tessalonicenses 4:17 Paulo escreve que os vivos serão arrebatados junto com os ressuscitados para encontrar o Senhor. A palavra portuguesa vem do latim rapio, que traduziu o grego harpazo nesse versículo.
Todas as igrejas cristãs acreditam no arrebatamento antes da tribulação?
Não. A Igreja Católica, as Igrejas Ortodoxas e a maioria das igrejas protestantes históricas não ensinam o arrebatamento como evento separado da segunda vinda. A doutrina é mais difundida no meio evangélico e pentecostal, e nem ali é unânime.
A Bíblia diz quando será o fim do mundo?
Não. Mateus 24:36 afirma que ninguém sabe o dia nem a hora, Marcos 13:32 repete a frase incluindo o Filho, e Atos 1:7 diz que não pertence aos discípulos saber os tempos. Nenhuma passagem oferece data ou meio de calcular uma.
O que são os mil anos de Apocalipse 20?
Há três leituras antigas. O amilenismo entende os mil anos como símbolo do tempo presente da Igreja, e predomina entre católicos, ortodoxos e protestantes históricos. O pós-milenismo os situa na história antes da volta de Cristo. O pré-milenismo os situa depois dela, e é comum no meio evangélico.
Quem foi John Nelson Darby?
Foi um pregador irlandês do século XIX associado à sistematização do dispensacionalismo, a corrente que popularizou a leitura do arrebatamento como evento anterior à tribulação. A difusão dessa leitura veio depois por bíblias de estudo anotadas e por literatura de grande circulação.
Textos bíblicos: Bíblia Livre (BLIVRE), licença Creative Commons Atribuição 4.0 — © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles. Orações, introduções e reflexões: texto original do site, sem vínculo com denominações. Conteúdo devocional; não substitui orientação médica, psicológica ou jurídica.
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