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Antigo e Novo Testamento: a diferença e como os dois se ligam

Quantos livros tem cada um, em que língua foram escritos, por que a ordem muda de uma Bíblia para outra e o que exatamente liga as duas partes — com os textos que fazem essa ligação.

Por · Professora de introdução bíblica, licenciada em Letras · Revisado por Tiago Monteiro

Publicado em · Atualizado em

Em resumo

  • A palavra Testamento traduz um termo que significa aliança ou pacto; Antigo e Novo Testamento são, literalmente, a antiga e a nova aliança.
  • Na edição que publicamos, o Antigo Testamento tem 39 livros escritos sobretudo em hebraico, e o Novo Testamento tem 27 livros escritos em grego, no primeiro século.
  • A Bíblia hebraica tem exatamente o mesmo conteúdo do Antigo Testamento protestante, mas conta 24 livros e os organiza em outra ordem, terminando em Crônicas e não em Malaquias.
  • As Bíblias católicas e ortodoxas incluem livros adicionais no Antigo Testamento, chamados deuterocanônicos; o Novo Testamento de 27 livros é comum a todas as tradições cristãs.
  • A ligação entre as duas partes é feita pelos próprios textos: Jeremias 31 anuncia uma nova aliança, e Lucas 24, Mateus 5 e Hebreus 1 leem o Antigo Testamento como continuidade, não como capítulo cancelado.
Neste artigo

Antigo e Novo Testamento são as duas grandes partes da Bíblia cristã. A palavra Testamento traduz um termo que, no hebraico e no grego, significa aliança ou pacto — de modo que a divisão não é entre um livro velho e um livro novo, e sim entre duas alianças. O Antigo Testamento reúne textos escritos ao longo de séculos antes de Cristo, sobretudo em hebraico; o Novo reúne textos escritos em grego no primeiro século.

Este artigo mostra quantos livros tem cada parte, como estão organizados, por que a contagem muda de uma tradição cristã para outra e quais textos fazem a ligação entre os dois.

Quantos livros tem cada Testamento

Na edição que publicamos aqui — a Bíblia completa em português, na Bíblia Livre —, são 66 livros: 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo.

Antigo TestamentoNovo Testamento
Livros39 (nesta edição)27
Língua originalHebraico, com trechos em aramaicoGrego
Período de escritaAo longo de vários séculos antes de CristoPrimeiro século depois de Cristo
Primeiro livroGênesisMateus
Último livroMalaquiasApocalipse
Gêneros predominantesNarrativa, lei, poesia, profeciaNarrativa, carta, apocalipse

A ordem dos livros do Antigo Testamento

Os 39 livros são agrupados em cinco blocos:

BlocoQuantosQuais
Pentateuco ou Lei5Gênesis a Deuteronômio
Históricos12Josué a Ester
Poéticos e sapienciais5Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos
Profetas maiores5Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel
Profetas menores12Oseias a Malaquias

"Maiores" e "menores", nos dois últimos blocos, é uma questão de tamanho, não de importância: os menores são livros curtos, e Obadias tem um único capítulo.

Essa ordem não é a única. A Bíblia hebraica organiza o mesmo material em três partes — Lei, Profetas e Escritos — e conta 24 livros, porque agrupa os doze profetas menores em um só e não separa Samuel, Reis e Crônicas em primeiro e segundo. O conteúdo é idêntico; a arrumação, não. E a diferença tem efeito: naquela ordem, o Antigo Testamento termina em Crônicas, e não com a profecia de Malaquias.

A ordem dos livros do Novo Testamento

BlocoQuantosQuais
Evangelhos4Mateus, Marcos, Lucas, João
História1Atos dos Apóstolos
Cartas de Paulo13Romanos a Filemom
Hebreus e cartas gerais8Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, 1 a 3 João, Judas
Apocalipse1Apocalipse

Aqui também a ordem não é cronológica. As cartas de Paulo são anteriores aos Evangelhos como texto escrito, e ainda assim vêm depois deles — porque a organização é temática, e não por data.

Por que o número de livros muda de uma Bíblia para outra

Este é o ponto em que as tradições cristãs divergem, e vale descrever cada uma em vez de eleger uma.

  • Bíblias protestantes trazem 39 livros no Antigo Testamento, seguindo a lista da Bíblia hebraica.
  • Bíblias católicas trazem 46, incluindo os chamados deuterocanônicos: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria e Eclesiástico, além de acréscimos em Ester e em Daniel e do livro de Baruc.
  • Bíblias ortodoxas incluem os deuterocanônicos e ainda outros textos, com variação entre as igrejas ortodoxas.
  • O Novo Testamento de 27 livros é o mesmo em todas as tradições cristãs.

A raiz da diferença é antiga: a tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta, circulava com mais livros do que a lista fixada pelo judaísmo rabínico, e as tradições cristãs tomaram decisões diferentes sobre o que fazer com esse material.

A edição publicada neste site é a de 66 livros. Isso é uma consequência da tradução de licença aberta que usamos, e não uma tomada de posição sobre o cânone — como explicamos em traduções e licenças.

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Como os dois Testamentos se ligam

A ligação não é uma teoria de leitura inventada depois: ela está dentro dos próprios textos.

A promessa de uma nova aliança já está no Antigo Testamento. Jeremias 31 diz: "Mas este é o pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias,diz o SENHOR: Darei minha lei em seu interior, e a escreverei em seus corações; e eu serei o Deus deles, e eles serão meu povo."

O Novo Testamento lê o Antigo como referência constante. Em Lucas 24, depois da ressurreição, o texto diz: "E começando de Moisés, e por todos os profetas, lhes declarava em todas as Escrituras o que estava escrito sobre ele." As Escrituras ali mencionadas são o Antigo Testamento; o Novo ainda não existia.

A continuidade é afirmada explicitamente. Em Mateus 5: "Não penseis que vim para revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas sim para cumprir."

E a diferença também. Hebreus 1 abre assim: "Deus falou antigamente muitas vezes, e de muitas maneiras, aos ancestrais pelos profetas. Mas nestes últimos falou a nós por meio do seu Filho". O mesmo Deus, o mesmo projeto, um modo novo de falar.

A formulação clássica dessa relação, repetida no documento Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, é que o Novo Testamento está latente no Antigo e o Antigo se torna patente no Novo. É uma boa síntese, e ela vale como descrição do modo como os autores do Novo Testamento efetivamente citam e usam os textos anteriores.

O que muda e o que não muda

O que muda, segundo o próprio Novo Testamento, é a mediação e o alcance: o sistema de sacrifícios do Templo, as regras de pureza ritual e a delimitação de um povo por descendência deixam de ser o eixo. O que não muda é o Deus descrito, a moral profética — justiça para o pobre, o estrangeiro, a viúva e o órfão — e a leitura contínua dos mesmos textos.

Três ideias erradas sobre a relação entre os dois

  • "O Deus do Antigo é de ira e o do Novo é de amor." A afirmação não sobrevive à leitura. O Antigo Testamento repete que Deus é misericordioso e lento para se irar, e o Novo contém os textos mais duros da Bíblia sobre juízo. A diferença é de gênero e de foco narrativo, não de personagem.
  • "O Antigo Testamento foi cancelado." Jesus e os autores do Novo Testamento citam o Antigo o tempo inteiro, e Mateus 5:17 diz o contrário com todas as letras.
  • "O Antigo Testamento é história e o Novo é doutrina." Os dois contêm narrativa, poesia, lei, oração e argumento. Confundir isso é um erro de gênero literário, e os gêneros literários da Bíblia mostram por que ele custa caro na leitura.

Quanto tempo separa um do outro

Entre o último livro do Antigo Testamento e o primeiro do Novo há um intervalo de séculos, às vezes chamado de período intertestamentário. Ele não é vazio: nele acontecem a dominação grega, a revolta dos Macabeus, a chegada de Roma e a formação dos grupos que aparecem nos Evangelhos como fariseus, saduceus e zelotes.

Boa parte do que parece pressuposto e não explicado no Novo Testamento — sinagoga, escriba, expectativa messiânica, a própria existência de uma tradução grega das Escrituras em uso corrente — vem desse intervalo. Nas Bíblias católicas e ortodoxas, alguns dos livros deuterocanônicos cobrem justamente esse período.

Por onde começar em cada um

No Novo Testamento, comece pelo Evangelho de Marcos: é o mais curto e o mais rápido. No Antigo, comece por Gênesis 1 a 12 e depois vá a Salmos — o resto do Pentateuco faz muito mais sentido com essa base. E se a ideia for ler os dois de ponta a ponta, o plano de leitura organiza o percurso em dias e marca o progresso.

Fontes

Perguntas frequentes

Quantos livros tem o Antigo e o Novo Testamento?

Na edição publicada neste site são 66 livros: 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo. Bíblias católicas trazem 46 livros no Antigo Testamento e as ortodoxas trazem ainda outros; o Novo Testamento de 27 livros é o mesmo em todas as tradições cristãs.

O que significa a palavra Testamento na Bíblia?

Traduz um termo que, no hebraico e no grego, significa aliança ou pacto. Antigo e Novo Testamento são, portanto, a antiga e a nova aliança — a divisão é entre dois pactos, e não entre um livro velho e um livro novo.

Por que a ordem dos livros muda de uma Bíblia para outra?

Porque as tradições organizam o mesmo material de formas diferentes. A Bíblia hebraica agrupa os textos em Lei, Profetas e Escritos e conta 24 livros, terminando em Crônicas; as Bíblias cristãs usam blocos por gênero e terminam o Antigo Testamento em Malaquias. O conteúdo é o mesmo.

O Antigo Testamento ainda vale para os cristãos?

As tradições cristãs respondem que sim, com diferenças sobre como aplicar as leis rituais. O próprio Novo Testamento cita o Antigo continuamente, e Mateus 5:17 registra Jesus dizendo que não veio revogar a Lei ou os Profetas, e sim cumprir.

O Deus do Antigo Testamento é diferente do Deus do Novo?

Não segundo os textos. O Antigo Testamento repete que Deus é misericordioso e lento para se irar, e o Novo contém passagens duras sobre juízo. A impressão de contraste vem da diferença de gênero literário e de foco narrativo entre as duas coleções.

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