O que a Bíblia diz sobre o céu e o inferno, e o que não diz
A Bíblia usa quatro palavras diferentes que costumam ser traduzidas por inferno, e nenhuma delas descreve o cenário que a cultura popular imagina. Veja o que o texto traz e onde as tradições cristãs divergem.
Por Helena Vasques · Professora de introdução bíblica, licenciada em Letras · Revisado por Tiago Monteiro
Publicado em · Atualizado em
Em resumo
- A Bíblia usa quatro palavras distintas que as traduções costumam verter por inferno: Sheol, Hades, Geena e Tártaro, e elas não significam a mesma coisa.
- Geena, a palavra que Jesus usa nos Evangelhos, é o nome de um vale real ao sul de Jerusalém, usado como imagem de destruição e juízo.
- A descrição bíblica mais detalhada do destino final dos salvos, em Apocalipse 21, não é uma cidade no céu, e sim uma nova Jerusalém que desce à terra.
- Fogueiras, demônios com forcado, círculos e níveis de punição não vêm da Bíblia: vêm da arte medieval e principalmente da Divina Comédia de Dante.
- Católicos, ortodoxos, protestantes históricos e evangélicos descrevem o céu e o inferno de maneiras diferentes, e há posições minoritárias dentro de cada bloco.
Neste artigo
- 01Quais palavras a Bíblia traduz por inferno?
- 02O que Jesus diz sobre a Geena?
- 03O que a parábola do rico e de Lázaro descreve?
- 04Como a Bíblia descreve o céu?
- 05Como cada tradição cristã descreve céu e inferno?
- 06Por que as traduções não usam sempre a mesma palavra?
- 07Juízo final e estado intermediário são a mesma coisa?
- 08O que veio de Dante e não da Bíblia
- 09Onde ler os capítulos
Resposta direta: a Bíblia fala do destino final com imagens, não com mapa. Em vez de uma palavra para "inferno", o texto original usa quatro — Sheol no Antigo Testamento hebraico, Hades e Geena no grego dos Evangelhos, e Tártaro uma única vez —, e elas não são sinônimas. Sobre o céu, a descrição mais extensa está em Apocalipse 21, e o que ela apresenta não é uma cidade no alto, e sim uma nova Jerusalém que desce à terra, onde Deus habita com as pessoas.
Quais palavras a Bíblia traduz por inferno?
| Palavra | Onde aparece | O que designa no texto |
|---|---|---|
| Sheol (hebraico) | Antigo Testamento, muitas vezes | O lugar dos mortos em geral, sem distinção entre justos e injustos; em vários salmos é descrito como silêncio e esquecimento |
| Hades (grego) | Evangelhos, Atos, Apocalipse | O equivalente grego de Sheol; é a palavra usada na parábola do rico e de Lázaro |
| Geena (grego) | Quase só na boca de Jesus, nos Evangelhos | Transliteração de Vale de Hinom, um vale real ao sul de Jerusalém; imagem de juízo e destruição |
| Tártaro (grego) | Uma única vez, em 2 Pedro 2:4 | Termo tomado da mitologia grega, aplicado a anjos que pecaram |
Essa distinção resolve boa parte das discussões que parecem ser sobre doutrina e são sobre tradução. Quando um texto diz que alguém desceu ao Sheol, o hebraico não está falando de castigo: está falando de morte.
O que Jesus diz sobre a Geena?
As passagens mais duras do Novo Testamento sobre castigo usam a imagem do vale de Hinom, um lugar concreto que os ouvintes conheciam:
E se teu olho te faz pecar, lança-o fora; melhor te é entrar no Reino de Deus com um olho, do que, tendo dois olhos, ser lançado no fogo do inferno, onde seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga. (Marcos 9:47-48)
Mateus registra o mesmo vocabulário no Sermão do Monte, em Mateus 5, e a frase final do juízo das nações em Mateus 25 fala de tormento eterno e vida eterna como os dois destinos. Note o gênero literário: são imagens de advertência, com hipérbole deliberada — a mesma frase manda arrancar o olho.
O que a parábola do rico e de Lázaro descreve?
É o texto mais usado para descrever consciência depois da morte:
E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o colo de Abraão. E o rico também morreu, e foi sepultado. E estando no Xeol em tormentos, ele levantou seus olhos, e viu a Abraão de longe, e a Lázaro junto dele. (Lucas 16:22-23)
A discussão entre as tradições começa aqui: parte lê a passagem como informação sobre o estado dos mortos, parte lê como parábola construída com imagens correntes na época para tratar de riqueza e indiferença. O capítulo está em Lucas 16.
Como a Bíblia descreve o céu?
Menos como lugar e mais como presença. A descrição mais extensa é o fecho do Apocalipse, que abre com a visão de um novo céu e de uma nova terra e segue assim:
E eu ouvi uma grande voz do céu, dizendo: “Eis que o tabernáculo de Deus está com os seres humanos; e com eles habitará, e eles serão seu povo, e o próprio Deus estará com eles, e será seu Deus. E Deus limpará toda lágrima dos olhos deles; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem mais haverá dor; porque as primeiras coisas já passaram.” (Apocalipse 21:3-4)
Vale reparar na direção do movimento em Apocalipse 21: a cidade desce. A imagem popular de almas subindo para morar nas nuvens não é a imagem do texto.
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Como cada tradição cristã descreve céu e inferno?
| Tradição | Céu | Inferno | Estado intermediário |
|---|---|---|---|
| Católica | Visão de Deus, comunhão plena e definitiva | Estado de separação definitiva de Deus, escolhido por quem se recusa até o fim; o Catecismo insiste que a pena principal é essa separação | Reconhece o purgatório como purificação de quem morre em amizade com Deus |
| Ortodoxa | Participação na vida divina, descrita como transformação progressiva | Costuma descrever a mesma presença de Deus vivida como sofrimento por quem a recusa; evita descrições topográficas | Ora pelos falecidos, mas não define purgatório nos termos católicos |
| Protestante histórica | Comunhão com Deus e ressurreição do corpo | Separação e juízo, com ênfase na linguagem bíblica e recusa das descrições medievais | Rejeita o purgatório; a maioria fala em estar com Cristo até a ressurreição |
| Evangélica e pentecostal | Presença de Deus e nova criação; a pregação costuma ser mais concreta | Castigo consciente e eterno, na posição majoritária | Rejeita o purgatório |
Dentro desses blocos existem posições minoritárias antigas e discutidas: o aniquilacionismo, que entende a destruição como fim da existência e não como tormento sem fim, defendido por parte de teólogos evangélicos e pela tradição adventista; e a esperança de reconciliação universal, presente em alguns autores da patrística e em correntes contemporâneas. Este site descreve o quadro; não elege a leitura correta.
Por que as traduções não usam sempre a mesma palavra?
Porque as quatro palavras do original não coincidem com nenhuma palavra portuguesa única. Traduções antigas costumavam verter Sheol e Hades por inferno, o que criou a impressão de que o Antigo Testamento fala de castigo desde o início. Traduções mais recentes tendem a transliterar Sheol e Hades e reservar inferno para Geena.
A Bíblia Livre, usada neste site, transcreve Xeol em passagens como Lucas 16:23, e é por isso que o versículo citado acima soa diferente do que muita gente decorou. A explicação sobre a tradução está em traduções e licenças.
Nada disso é manipulação de tradutor: é a dificuldade normal de verter vocabulário de três línguas antigas para uma língua moderna.
Juízo final e estado intermediário são a mesma coisa?
Não, e confundir os dois embaralha a maior parte das conversas sobre o assunto.
O estado intermediário é o que se supõe acontecer entre a morte de uma pessoa e a ressurreição geral. O juízo final é o evento coletivo e público descrito no fim de Mateus 25 e em Apocalipse 20.
As quatro tradições descritas acima distinguem as duas coisas. O que muda entre elas é o que dizem sobre o intervalo, e esse ponto está detalhado em o que acontece quando alguém morre.
O que veio de Dante e não da Bíblia
Vale separar com clareza:
- Círculos, níveis e punições proporcionais ao pecado. Estrutura da Divina Comédia, escrita no início do século XIV. Não existe na Bíblia.
- Demônios com forcado, chifres e rabo. Iconografia medieval e renascentista, não descrição bíblica.
- Portões, nuvens e pessoas com harpa. Imagem cultural moderna, popularizada por pintura, cartum e cinema.
- Almas que viram anjos ao morrer. A Bíblia trata anjos como criaturas distintas dos seres humanos; Mateus 22:30 diz que na ressurreição as pessoas serão como os anjos, não que se tornarão anjos. Esse ponto é detalhado em os anjos na Bíblia.
Nada disso significa que as tradições cristãs sejam contra imagens. Significa apenas que essas imagens específicas têm autoria conhecida e data conhecida, e não estão no texto.
Onde ler os capítulos
Quem quiser conferir de ponta a ponta pode ler Lucas 16, Mateus 25 e Apocalipse 21 em sequência, pelos links das seções acima — são três textos curtos e representam bem os três tipos de linguagem usados no assunto: parábola, discurso de juízo e visão apocalíptica.
Texto bíblico: Bíblia Livre (BLIVRE), licença Creative Commons Atribuição 4.0. Este artigo descreve o que o texto diz e o que diferentes tradições cristãs ensinam; não recomenda uma delas.
Fontes
Perguntas frequentes
O inferno da Bíblia é fogo literal?
As passagens usam a imagem do fogo do vale de Hinom, ao sul de Jerusalém, dentro de discursos com hipérbole deliberada. Parte das tradições lê a linguagem como descrição, parte como imagem de destruição e separação. O texto não descreve geografia nem temperatura.
Qual a diferença entre Sheol, Hades e Geena?
Sheol é a palavra hebraica para o lugar dos mortos em geral, sem distinção entre justos e injustos. Hades é o equivalente grego usado no Novo Testamento. Geena vem de Vale de Hinom, um vale real perto de Jerusalém, e é a palavra que Jesus usa nas advertências sobre juízo.
O céu fica no céu, acima das nuvens?
A descrição mais extensa da Bíblia sobre o destino final, em Apocalipse 21, mostra o movimento contrário: a nova Jerusalém desce do céu para uma terra renovada, e Deus passa a habitar com as pessoas. A imagem de almas subindo para as nuvens é cultural, não bíblica.
O purgatório está na Bíblia?
A palavra não aparece. A Igreja Católica sustenta a doutrina apoiada em textos como 2 Macabeus 12, que está na Bíblia católica e não na protestante, e na tradição da Igreja. Igrejas protestantes e evangélicas rejeitam a doutrina; as ortodoxas oram pelos falecidos sem definir purgatório nos termos católicos.
Os círculos do inferno estão na Bíblia?
Não. Os nove círculos, com punições proporcionais a cada pecado, são a estrutura da Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri no início do século XIV. Nenhum texto bíblico descreve níveis ou divisões do inferno.
Textos bíblicos: Bíblia Livre (BLIVRE), licença Creative Commons Atribuição 4.0 — © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles. Orações, introduções e reflexões: texto original do site, sem vínculo com denominações. Conteúdo devocional; não substitui orientação médica, psicológica ou jurídica.
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